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Afinal, o que é identidade confessional?

Os dicionários definem identidade como o conjunto de características que distinguem uma pessoa ou uma coisa e por meio das quais é possível individualizá-la. A palavra tem origem no termo latino idem que, quando acrescido do sufixo dade ganha o sentido de qualidade e atributo. Idem é o idêntico, o igual, o mesmo, o repetitivo. Quando falamos da identidade de um sujeito estamos nos referindo, então, a um ser insubstituível e identificável como tal. Já quando falamos de identidade aplicada a realidades institucionais – mais abstratas e coletivas – nos referimos a um conjunto de marcas que tornam possível a identificação de uma instituição a um determinado conjunto de valores. 

O vocábulo confessional, por sua vez, vem da palavra confissão, que nos contextos católicos precisa passar por desambiguações, afinal os católicos tratam o sacramento da Reconciliação pelo termo  popular da confissão. De alguma forma, há uma vinculação entre os dois sentidos da palavra, porque o sacramento da Confissão nada mais é do que o exercício de expor a verdade sobre si – sobre quem se é e sobre o que se faz. Ora, a confissão neste caso da confessionalidade está ligada à confissão de fé ou profissão de fé. O ato de confessar uma fé significa aderir a um corpo de crenças e princípios, como o jesuíta Leonel Franca definiu no célebre livro “A psicologia da Fé”. Para ele, crer era um ato de inteligência e de vontade, ou seja, da dimensão racional e da dimensão emocional-volitiva. 

Logo, a identidade confessional de uma instituição educacional é isto: um conjunto de características, marcas, expressões, elementos estéticos e simbólicos e opções institucionais que comunicam direta e indiretamente que uma instituição segue uma confissão religiosa e permitem identificá-la como tal. 

A identidade multifacetada de uma escola católica

Poderíamos transpor a ideia de Leonel Franca e dizer que a confessionalidade de uma instituição se liga a um modo de pensar e de agir orientados pelos valores do Evangelho. É verdade que na tradição aristotélico-tomista, a identidade está relacionada à essência ou substância da coisa e tem um caráter estático. Entretanto, a identidade não é totalmente estática e seria possível afirmar até mesmo que a identidade é substancialmente dinâmica, não no sentido de mutação, mas no sentido de movimento de adequação. A identidade humana é assim: somos o que somos adequando-nos às circunstâncias, épocas da vida, acontecimentos e condições externas a nós. Da mesma forma, a identidade confessional de uma escola católica move-se ao longo do tempo para se adequar. Há aspectos que permanecem em termos de matéria, mas sempre mudam sob o aspecto da forma, como se disséssemos que a identidade é a mesma, mas sua manifestação muda para tornar-se significativa com o passar do tempo.

Hoje, poderíamos identificar as manifestações da identidade confessional em cinco facetas básicas: concepção antropológica, concepção pedagógica, gestão de recursos, relacionalidade e pastoralidade. Estas cinco facetas (e o uso desta da palavra tem por objetivo salientar o aspecto de percepção, ângulo, visada) desdobram-se em opções institucionais, orientações, práticas, projetos, estéticas, investimentos etc.

Concepção antropológica

A pergunta de fundo é ‘como entendemos o ser humano?”. É interessante observar que por trás de todo projeto pedagógico, de toda escola, está subjacente esta pergunta. Nem sempre ela é respondida com clareza, especialmente nas escolas privadas com fins lucrativos que oferecem uma formação exclusivamente voltada para a inserção no mercado de trabalho. A resposta católica para esta pergunta leva em consideração que o ser humano é uma pessoa, ou seja, é um ser complexo que tem uma dimensão física, psíquica e espiritual. É um ser aberto ao Outro – seja o outro humano ou o outro divino, e, portanto, o ser humano é um ser de transcendência. Na fé cristã católica, o homem é uma criatura feita à imagem e semelhança de Deus (imago Dei) e, portanto, tem como sua finalidade última (sua realização) a felicidade em Deus.

Ora, esta concepção antropológica desdobra-se concretamente na escola católica na opção fundamental de sempre colocar no centro o estudante como pessoa humana que precisa formar-se em múltiplas dimensões. Daí que as escolas católicas optam por uma  formação integral da pessoa humana em que se busca formar não apenas a dimensão cognitiva e acadêmica ou profissional, mas também a interioridade, a espiritualidade, a sensibilidade, oferecendo repertórios que permitam ao estudante aprimorar-se como ser humano desenvolvendo todas as suas potencialidades. As escolas católicas não oferecem a formação intelectual, mas também a emocional, afetiva, sexual, espiritual, relacional. 

Concepção pedagógica

Trata-se de responder à questão: “o que é educar um ser humano?” A Pedagogia é a ciência humana que responde a esta pergunta e pode-se dizer que na longa tradição da Igreja há uma resposta a esta pergunta que se soma às melhores teorias pedagógicas contemporâneas. Na visão da Igreja, educar um ser humano é oferecer as condições para que se ele desenvolva plenamente, em todas as suas dimensões. Não é apenas a transmissão de conhecimento científico ou acadêmico, mas a produção de uma sabedoria que integra os conhecimentos da ciência com as necessidades da existência para descobrir a Deus em todas as coisas e engajar-se como ser humano na construção do seu Reino nas diferentes áreas de sua vida (subjetividade, família, sociedade, política)

Na escola católica, a concepção pedagógica reflete-se nas escolhas de metodologias, currículos, práticas de aprendizagem que estimulem criticamente os estudantes, oferecendo conteúdos e critérios de pensamento e ação pautados nos valores da verdade, da justiça, do bem-comum, do amor e da paz. Isso significa produzir um currículo evangelizador, que extrapole o que é minimamente necessário saber, para produzir potência de pensamento e ação no estudante. Em outras palavras, esta concepção pedagógica está no jeito e no conteúdo. 

Também é uma opção pedagógica da escola católica conduzir o processo de ensino-aprendizagem em parceria com a família, por entender que há uma dimensão afetivo-emocional, que tem implicâncias diretas na cognição, que devem ser desenvolvidas na escola e na família.

Gestão de recursos

Mas a identidade não está só em aspectos conceituais e abstratos, ela também interfere em como uma escola católica deve ser gerida. Daí que, para a Igreja, desde a encíclica de Pio XI Divinus Ilius Magister, passando pela constituição apostólica Gravissimum Educationis do Concílio Vaticano II, a Igreja entende que a escola católica integra-se à sociedade como um serviço, e portanto, deve ser gerida com transparência, sem usura, com justiça visando o bem da comunidade em que está inserida. Também deve ser gerida de acordo com os princípios do evangelho a fim de se garantir a coerência entre os valores que professa e aquilo que pratica.

De modo concreto, isso desdobra nas prioridades dos investimentos que dada ao aspecto missionário e humanista, na criteriosa escolha dos professores que devem corresponder aos princípios e valores do Evangelho e na garantia de experiências acadêmicas e pastorais de excelência para os estudantes e suas famílias

Relacionalidade

Uma quarta faceta pela qual é possível identificar uma escola enquanto católica são as relações humanas estabelecidas no ambiente escolar. A pergunta de fundo é: “como devem ser as relações entre as pessoas que integram uma escola católica?”

Para a Igreja Católica, as relações humanas devem ser vividas sob a imitação de Cristo, ou seja, baseadas num profundo respeito à identidade do outro, com mansidão, magnanimidade, verdade, justiça, sempre buscando a paz, a conciliação, o bem do outro e da comunidade.

Nas escolas, as relações entre professores e alunos devem ser pautadas pelo diálogo, escuta, interesse mútuo, respeito à individualidade, sem imposições, castigos, violência. O mesmo vale para a relação da escola com a família, entre professores, da gestão com os colaboradores etc.

Pastoralidade

Por fim, a dimensão  mais evidente da identidade confessional é a Pastoralidade que busca responder à questão: “como a escola católica evangeliza?” Para a Igreja Católica, a escola é um espaço de evangelização no qual é possível promover o encontro pessoal com Cristo e a integração à comunidade de fé. Esta evangelização é um feliz anúncio do amor de Deus e da sua misericórdia, que nos abraça e acompanha pela ação do Espírito Santo, Espírito este que nos move à vida em comunidade e ao compromisso fraterno com todas as pessoas, vendo nelas nossos irmãos e irmãs. 

Logo, o objetivo da Evangelização na escola católica – como é em toda a Igreja – não se restringe a tornar as pessoas católicas, mas em torná-las imitadoras de Cristo. Por isso, as escolas católicas devem buscar uma vida pastoral intensa, com atividades, programas, celebrações que busquem comunicar a pessoa de Cristo e produzir uma experiência rica e transformadora. Entendendo o aspecto plural e diverso dos estudantes, a evangelização precisa dialogar com as realidades e, portanto, as propostas devem buscar responder aos anseios profundos daqueles que compõe a comunidade escolar (estudantes, famílias, educadores) oferecendo mais que a experiência religiosa, uma experiência de fé que enraíza a pessoa em Cristo e no seu Evangelho.

Para que a escola católica seja ainda mais católica

E se a identidade é dinâmica, temos que estas facetas são adaptáveis e mutáveis na medida em que somos convocados a “dar razões da nossa esperança” (1 Pd, 3, 15). Por isso, a escola católica está sempre se reinventando, discutindo e refletindo sobre qual é a melhor forma de colocar a pessoa no centro, oferecer-lhe uma formação integral, usar os recursos disponíveis de maneira responsável, qualificar as relações interpessoais e evangelizar de modo coerente. 

Se hoje as escolas católicas têm sido cobradas por sua identidade, para que sejam “mais católicas”, é preciso perpassar estas cinco dimensões. Infelizmente, muitos bispos, padres e pais de estudantes observam a escola católica somente da perspectiva do aspecto Pastoral e lançam uma expectativa extremamente descontextualizada, esperando que a escola seja uma mini-paróquia. Precisamos ajudar o clero e a comunidade a observarem a escola sob outros aspectos e ver como a formação que ali é oferecida está evangelizando de maneira ampla e profunda, oferecendo não apenas experiências religiosas, mas uma sólida base espiritual-existencial alicerçada na pessoa de Cristo. 

Esta visão distorcida, poderíamos conjecturar, é ainda um resquício daquela mentalidade de cristandade, um tipo de utopia ufanista que acompanha a Igreja de tempos em tempos – desejo de totalidade, de dominação, de uma sociedade homogeinizadamente cristã, sem relevos, planificada, higienizada e purista. Na verdade, o desafio lançado por Jesus de sermos sal da terra, luz do mundo, fermento na massa, semente no solo é o desafio de estarmos no mundo como agentes transformadores, não separados do mundo como uma casta santificada. O que Cristo espera de nós e das escolas católicas é que fecundemos a realidade, promovendo vida plena e ajudando as crianças e jovens a serem felizes direcionando suas energias e potencialidades para o Sumo Bem que é Deus.

Texto publicado originalmente na Revista de Pastoral da ANEC, n. 16.

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