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Perenidade das escolas católicas: desafios e esperanças para o futuro

Como reflexão final deste livro, gostaríamos de ensaiar uma discussão sobre a perenidade das escolas católicas no cenário educacional brasileiro, considerando, especialmente, os desafios e as esperanças para o futuro. Em primeiro lugar, é preciso considerar um fato: o Brasil do século XXI é um país diverso e múltiplo em todos os sentidos – cultural, religioso, ideológico, econômico etc. É verdade que, num passado recente, o Brasil foi um país majoritariamente católico. Em 1940, por exemplo, 95% da população brasileira se declarava católica. Esse número se manteve relativamente estável até o começo dos anos de 1980. Hoje, ainda que sejamos, numericamente, o país com o maior número de católicos do mundo, estamos longe da proporcionalidade – a Polônia tem 92%, o México, 85% e a Itália, 81%. Demograficamente, o Brasil também vem passando por uma transição: de um país com muitas crianças, muitos adolescentes e muitos jovens adultos para uma nação cada vez mais envelhecida, que gera cada vez menos filhos. Olhar para essas transições religiosa e demográfica nos ajuda a entender alguns dos muitos desafios enfrentados pela educação católica no país.

A questão da perenidade

A maior parte das congregações religiosas e dioceses brasileiras iniciaram as obras educacionais no começo do século XIX. Já no início do século XX, com o movimento migratório da Europa para a América do Sul, vieram as fundações de origem italiana, francesa, espanhola, alemã e holandesa, que abriram escolas durante as décadas de 20 e 30 e tiveram forte expansão sob as gestões de Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954). Nessa época, o Brasil era um país de maioria católica expressiva, embora, desde 1891, na primeira Constituição Republicana, tenha sido estabelecida a laicidade do Estado. Igreja e Estado, no entanto, sempre tiveram alguma relação – ora de desencontro e ora de parceria. As áreas de filantropia – educação, saúde e assistência social – sempre foram de parceria, e as escolas e universidades católicas sempre ocuparam um espaço significativo na engrenagem do ecossistema educacional. 

Entre as décadas de 30 e 90 do século passado, o sistema educacional brasileiro era diferente do que é hoje. Nesse período, o setor público foi se fortalecendo gradativamente e o setor privado era praticamente dominado pelas instituições confessionais – católicas, mas não todas, porque havia, também, protestantes da primeira onda, como metodistas, presbiterianos, luteranos e algumas denominações batistas. Também floresceram as instituições comunitárias, numa estrutura comum no Sul do Brasil, em que fundações e cooperativas educacionais abriam escolas e universidades para atender às comunidades locais. Vale destacar que a maioria das escolas e universidades católicas atuam, historicamente, por meio da filantropia, ou seja, como entidades beneficentes de assistência social, tendo uma parte de estudantes pagantes e outra parte significativa – a depender dos vários formatos que a legislação pertinente à filantropia assumiu ao longo dos anos – de estudantes que gozam de gratuidade integral ou parcial.

Foto de CDC

O cenário mudou drasticamente com a promulgação da Constituição de 1988 e durante os anos 90: houve a abertura do mercado educacional, que permitiu à iniciativa privada operar escolas e universidades. A Lei de Diretrizes e Bases (Lei n. 9.394/1996) estabelecia categorias administrativas que englobavam as instituições públicas, as privadas, as confessionais e as comunitárias. Com a expansão do mercado educacional, muitas novas escolas particulares se estabeleceram, por vezes, no entorno dos colégios católicos e iniciaram um processo de concorrência, muito mais competitivo do que era anteriormente. Antes, as escolas católicas praticamente monopolizavam a oferta particular, numa mentalidade de confortável hegemonia. Agora, são obrigadas a competir. Não bastavam projetos pedagógicos sólidos, formação centrada em valores: era preciso ter uma gestão capaz de entender e se posicionar frente ao marketing agressivo e desleal imposto pelas escolas de mercado. Algumas instituições não suportaram a concorrência. Em razão da diminuição do número de estudantes – agora compartilhado com concorrentes -, as mantenedoras viram-se obrigadas a encerrar a operação de algumas unidades ou a provocar a fusão entre elas. No começo dos anos 2000 e, mais recentemente, depois da década de 2010, o mercado educacional tornou-se ainda mais competitivo, com a entrada dos chamados “big players”. Com acionistas estrangeiros e ações na bolsa de valores, essas empresas realizam um modelo educacional com vantagens comerciais – em razão do volume de recursos. 

Somando os fatores econômicos e políticos à diminuição do número de católicos, temos um cenário desafiador para as instituições educacionais católicas. No entanto, essas pressões não devem nos desanimar nem nos desencantar. Ao contrário, devem nos oferecer um senso de realismo profético, que clama por responsabilidade, união, criatividade e, sobretudo, sinodalidade, afinal, é na união das diversas redes educacionais que conseguiremos nos fortalecer como uma oferta educacional promissora para o Brasil.

Pensar sobre a perenidade das escolas e universidades católicas implica um olhar autocrítico para identificarmos nossos reais diferenciais. Se falamos, hoje, de mercado educacional e de competitividade, precisamos “competir” com aquilo que nos torna únicos numa cena em que as escolas oferecem “mais do mesmo”. Essa autocrítica, contudo, nos direciona a uma questão maior, que esbarra em nossas convicções profundas enquanto instituições ligadas à missão evangelizadora da Igreja. Precisamos nos perguntar, honestamente: nossas narrativas ainda fazem sentido? Estamos, realmente, atentos aos sinais dos tempos? Em que nossa oferta educacional, constituída a partir da nossa confessionalidade, se mantém oportuna, significativa e relevante? Que tipo de confessionalidade pode fundamentar uma proposta educacional que se mantenha viável e oportuna, neste nosso momento histórico? Em que podemos nos aperfeiçoar para que nossas estruturas, gestadas em outros tempos, possam se mostrar adequadas e capazes da dinamicidade do cenário educacional de hoje? Pode soar como óbvio que acreditemos na mensagem de Jesus e no seu potencial transformador. No entanto, observamos como a prática e a vivência da fé católica têm estado cada vez mais dissociadas dos aspectos éticos e existenciais mais profundos e se tornado, para muitas pessoas, ou um departamento de suas vidas – a religião como costume, hábito – ou uma bandeira ideológica – o catolicismo como causa, seita ou partido. Nos perguntar se nossas narrativas fazem sentido não é, de maneira alguma, questionar se a doutrina da Igreja ou o Evangelho ainda significam algo, mas se nossa maneira de transmiti-los ainda é capaz de dizer algo à sociedade. Pensemos numa situação concreta: faz parte da fé da Igreja o cuidado com os mais pobres e vulneráveis, que nasce da caridade cristã, semeada pelo Espírito Santo em nós. Estamos incorporando esse elemento em nossas instituições ou vivenciando uma dimensão meramente espiritualista da fé? Sabemos anunciar esse princípio fundamental da doutrina da Igreja de maneira convincente e envolvente a ponto de encantar a mente e o coração das crianças e dos jovens que estudam em nossas escolas e universidades? 

Ao nos questionarmos sobre nossa real atenção aos sinais dos tempos, queremos provocar uma reflexão honesta sobre nosso interesse, enquanto Igreja, em promover uma educação integral, complexa e profunda. Nossa época exige de nós um esforço maior para formar criticidade, autonomia e liberdade nas crianças e nos jovens. Mas estamos cientes dessa tarefa ou pensamos que basta oferecer uma educação que leve ao sucesso profissional e que faça algumas experiências religiosas, sacramentais e basta? Ou, ainda: será que, enquanto Igreja, não preferimos apoiar projetos de cristandade, alimentando uma visão integrista e poderosa do catolicismo em vez de encará-lo, com inspiração no Papa, de forma a apresentar Jesus Cristo como centro e horizonte de sentido da existência, atuando tal qual um hospital de campanha?

Também é justo questionar nossa inércia e nossa morosidade em conduzir determinados processos: se permanecermos como estamos, se não tivermos a ousadia de investir numa gestão moderna e eficiente, numa linguagem pastoral coerente e profética, em propostas pedagógicas integralizadoras da pessoa humana com real impacto nas metodologias e didáticas, nós conseguiremos fazer frente ao mercado educacional? Se as lideranças eclesiais não apoiarem as escolas e universidades católicas que, há mais de um século, servem à Igreja e ao povo brasileiro, essas instituições sobreviverão às pressões que vêm de fora?

Encarar os desafios

Nesse sentido, parece pertinente elucidar alguns dos maiores desafios da educação católica atualmente. A começar pelo primeiro e, aparentemente, mais sufocante: o enfrentamento do mercado educacional. Como foi mencionado, as instituições privadas de capital aberto têm uma vantagem comercial. Graças ao vultoso capital investido, elas conseguem baratear a operação e diminuir custos, o que gera lucros enormes para os acionistas. No Brasil, o movimento inicial foi direcionado para o Ensino Superior e, mais recentemente, à Educação Básica. Nesse cenário, as escolas e universidades católicas vivem uma situação muito peculiar: enquanto instituições sem fins lucrativos, suas receitas devem ser reinvestidas. Ademais, em muitos casos, a arrecadação de fundos que mantêm as obras sociais de congregações e dioceses vem das matrículas pagantes das instituições particulares. Logo, a competitividade do mercado educacional não toca somente o atendimento das escolas e universidades, mas toda uma rede de solidariedade e caridade que caracteriza o apostolado dessas obras.

Dessa forma, o enfrentamento ao mercado de capital aberto tem sido uma pauta recorrente e urgente. Dentre as saídas imaginadas, estão as estratégias de diferenciação e valorização da identidade católica: olhar para o que fazemos e que nenhuma instituição particular pode oferecer como forma de nos posicionar com valor e importância social sem, necessariamente, nos comparar ao mercado. Não significa ignorar o mercado, mas recusar a mercantilização da educação católica, elaborando propostas pedagógicas robustas de humanização, formação espiritual e em valores e, sobretudo, oferecendo uma experiência educativa completa, que envolva ativamente as famílias e as comunidades.

O segundo desafio para a perenidade da educação católica é a promoção de uma cultura do diálogo numa sociedade profundamente polarizada do ponto de vista ideológico e político. Em um cenário em que as opiniões, muitas vezes, se chocam e as diferenças ideológicas demarcam o tom das relações interpessoais, a promoção dos valores cristãos pode ser vista como uma tarefa árdua e, por vezes, controversa. Esses valores incluem a compaixão, a justiça social, a solidariedade, o respeito pela dignidade humana desde a concepção até seu fim natural e a busca pela verdade – tudo isso como expressão autêntica dos compromissos que nascem da fé Naquele que, encarnado, assumiu integralmente a vida humana e levou-a às últimas consequências do amor entregue. Em uma sociedade polarizada, na qual as pessoas, muitas vezes, se posicionam firmemente em lados opostos de questões sociais, políticas e culturais, pode ser difícil para as escolas católicas manterem sua integridade e transmitirem esses valores de maneira eficaz. Infelizmente, muitas pessoas modulam os valores católicos a partir das próprias interpretações igualmente ideológicas sobre a Palavra de Deus e a doutrina da Igreja, aplicando ora uma seletividade frente ao magistério, ora um rigor extremista. 

Algumas famílias, sabendo-se clientes das escolas católicas, pressionam, de maneira violenta, os gestores, que precisam mediar conflitos ideológicos. Esperando que a escola seja católica “sob medida”, ignoram que a tarefa de uma educação verdadeiramente católica é a de formar para uma consciência respeitosa e aberta, a partir da mesma fé. As escolas católicas têm a oportunidade única de fomentar o diálogo e a tolerância como valores fundamentais. Ao promover um ambiente de respeito mútuo e abertura ao debate construtivo, as escolas católicas podem ajudar a criar pontes entre diferentes perspectivas e promover a compreensão mútua. Afinal, como cristãos, somos chamados a amar e respeitar nossos irmãos e nossas irmãs, independentemente de suas opiniões ou convicções políticas. Isso não significa que devemos abandonar nossas próprias crenças ou compromissos éticos, mas, sim, que devemos procurar maneiras de expressá-los de maneira respeitosa e construtiva, buscando sempre o bem comum e a reconciliação, a partir do exemplo daquele que sempre convida, mas nunca obriga ao seguimento.

O terceiro desafio que se impõe neste momento é o de integrar as práticas pedagógicas e os currículos às novas tecnologias. Essas realidades nos vêm ora como promessas de progresso, ora como ameaças  de destruição. De fato, a depender do uso que fazemos das tecnologias, elas podem servir ao bem e ao mal. Contudo, é um dado objetivo que as crianças e os jovens de hoje já nascem nativas digitais e ignorar esse aspecto na formação deles é negligência. Assim, as instituições educacionais católicas são instigadas a incorporar a inteligência artificial e outras tecnologias na formação de maneira responsável, aberta e balizada pelo respeito à dignidade humana. Nesse sentido, a persistência na formação humanística e solidária é cada vez mais custosa. O encanto com as facilidades tecnológicas e a sedução do materialismo consumista tornam nosso humanismo solidário um discurso sem aderência, desinteressante e quase um humanismo “solitário”. Apesar disso, as escolas católicas, pela história e pela experiência pedagógica que desenvolveram ao longo do tempo, devem insistir e consolidar a autoridade no tema do humanismo solidário e o farão pelo cultivo de pedagogias que induzam o protagonismo dos estudantes, o compromisso social, o autoconhecimento, a formação ética e política a partir dos valores do Reino de Deus. O quarto desafio das escolas e universidades católicas está relacionado ao acolhimento e à inclusão das diferenças. O Papa Francisco tem ensinado que a Igreja é para todos, sem exceção. Isso significa incluir os pobres, os marginalizados, os deficientes etc. No país, vem crescendo a consciência sobre os direitos das pessoas com deficiência, especialmente das pessoas com transtorno do espectro autista e de outras tantas deficiências que tocam diretamente nossa rotina educativa. Há uma demanda crescente por atendimento educacional e as escolas católicas são reconhecidas em todo o país pelo exemplo e pela seriedade na condução desse trabalho. No entanto, a implementação de políticas de inclusão e acessibilidade supõe investimentos e recursos dos quais, muitas vezes, as escolas católicas não dispõem. Além disso, o poder público, não raras vezes, resigna-se diante da demanda de muitas famílias e terceiriza sua responsabilidade sem subvenção ou fomento. Falta ao país uma política de educação inclusiva verdadeira, que contribua para que as famílias e as instituições sejam espaços acolhedores para o desenvolvimento humano integral das crianças e dos adolescentes.

O quinto desafio, que, de alguma forma, já foi mencionado, é a necessidade de renovação da gestão. Diante dele, deve-se implementar estratégias que garantam uma gestão eficaz e atualizada, ao mesmo tempo que se preservam a identidade e os valores católicos da instituição. Uma das principais formas de renovar a gestão administrativa é por meio da profissionalização dos processos e das equipes. Isso inclui a adoção de práticas modernas de gestão, a implementação de tecnologias educacionais inovadoras e o investimento na formação contínua dos funcionários administrativos. A gestão administrativa profissionalizada permite uma maior eficiência na organização escolar, o que facilita a tomada de decisões e a resolução de problemas de forma mais ágil e eficaz. Tudo isso pode ser impulsionado por um reposicionamento de mentalidade: a viabilidade das nossas propostas e das nossas instituições não é mais garantida apenas pela tradição e pela antiguidade; nossas estratégias precisam ser realmente viáveis e seguras. E, por isso, demandam o empenho de profissionais – técnicos e gestores – bem formados e abertos ao diálogo com as graves questões impostas pelo atual momento.

No âmbito pedagógico, a renovação pode ser alcançada por meio da atualização constante dos métodos de ensino e da incorporação de abordagens educacionais centradas no aluno. Isso inclui a implementação de currículos flexíveis e adaptáveis, o uso de recursos tecnológicos para aprimorar o processo de aprendizagem e o estímulo à criatividade e ao pensamento crítico dos estudantes. Além disso, é fundamental promover uma cultura de avaliação e de feedback contínua, que permita acompanhar o progresso dos alunos e identificar áreas de melhoria no ensino.

No entanto, um dos desafios mais prementes que as escolas católicas enfrentam é o encolhimento da vida religiosa consagrada e, consequentemente, a escassez de líderes pastorais qualificados para orientar a comunidade escolar. Para lidar com essa questão, é essencial investir no treinamento de novos gestores e na formação de líderes pastorais leigos, que possuam uma sólida formação eclesial e um profundo compromisso com os valores e ensinamentos da Igreja Católica. A incorporação do laicato com boa formação eclesial na gestão pastoral das escolas católicas pode trazer uma nova vitalidade e um novo dinamismo à vida espiritual da comunidade escolar. Esses líderes leigos podem desempenhar um papel fundamental na promoção da espiritualidade católica, na orientação espiritual dos alunos e na organização de atividades pastorais significativas. Além disso, a presença deles pode ajudar a garantir que a identidade católica da escola seja preservada e transmitida de forma autêntica. Não se tocam, aqui, os desafios próprios das congregações e dos institutos de vida religiosa, no que diz respeito à diminuição de seus quadros e aos desafios carismáticos próprios da vida religiosa neste tempo. Esses desafios são um capítulo à parte, que caberá ser enfrentado pela Igreja.

Um sexto desafio para as escolas católicas é a atualização da identidade diante da transição religiosa que ocorre em muitas partes do mundo. Em um contexto de crescente diversidade religiosa, é essencial que essas instituições promovam uma reflexão profunda sobre o próprio papel na sociedade e adotem uma postura inclusiva e aberta ao diálogo inter-religioso. Consequentemente, num cenário tão polarizado, não basta abrir as portas para acolher, mas também para educar a comunidade escolar para essa acolhida e esse diálogo que pressupõe escuta e mediação técnica.

Uma das primeiras etapas para atualizar a identidade confessional das escolas e universidades católicas é a reflexão sobre o papel em uma sociedade diversificada religiosamente. Isso envolve reconhecer e respeitar a pluralidade de crenças e tradições religiosas presentes na comunidade escolar, bem como promover um ambiente de respeito mútuo e tolerância religiosa. 

Todavia, há quem sonhe com uma escola católica apenas para católicos, recusando o sentido mais profundo de “católico”, que é a universalidade, e nutrindo a fantasia de uma cristandade que, em sentido estrito, só existe na imaginação de quem a deseja. Nessa fantasia, a fé e a Igreja se reduzem a um grupo fechado e isolado, detentor único da verdade e indisponível ao diálogo. Essa ideia de educação católica ganha cada vez mais força porque ela, no dizer do Papa Francisco, é uma visão “centrípeta” da Igreja – gira em torno de si e direciona suas forças para dentro. A autorreferencialidade oferece uma falsa segurança, relembra o Papa, porque dá a impressão de estarmos imunes ao que é diverso a nós. No entanto, o pensamento do Papa e a vocação da Igreja, desde o princípio, são agir de maneira “centrífuga” – sempre para fora, sempre na direção do outro. Isso significa criar espaços e oportunidades para o diálogo, em que estudantes, professores e funcionários possam compartilhar as próprias visões de mundo e confrontá-las com a mensagem do Evangelho com liberdade e sem constrangimentos.

A promoção de uma identidade católica inclusiva também requer um compromisso com a justiça social e a solidariedade, valores fundamentais do ensinamento católico. Isso envolve o engajamento ativo na promoção da paz, da justiça e do bem-estar de todos os membros da comunidade, independentemente da origem étnica, socioeconômica ou religiosa. Urge superar uma visão de Pastoral Escolar desconectada da realidade, baseada numa vivência sacramental formalista e pró-forma. As escolas católicas que ousam reelaborar sua pastoralidade, incorporando práticas de anúncio e vivências com linguagens atrativas e diversificadas, que constroem um repertório de espiritualidade e engajamento comunitário amplo e aberto, experimentam um reavivamento da própria identidade.

Além disso, as escolas e universidades católicas podem desempenhar um papel importante na construção de pontes entre diferentes tradições religiosas, de forma a promover o entendimento mútuo e a cooperação inter-religiosa em prol do bem comum. Esta, talvez, seja uma das maiores riquezas da educação católica: ser um espaço em que a Igreja ainda consegue dialogar com qualidade com outras visões de mundo, de forma a oferecer a visão cristã da realidade como uma alternativa viável, e não simplesmente como um dado de fé que faça sentido apenas à comunidade dos que creem. Ou ainda: ser um lugar de discussão madura e fundamentada da fé, para além das opiniões e dos preconceitos, tornando-a mais credível e relevante.

O sétimo desafio, já mencionado quando referido à gestão, é sair da ilusão de que “ter tradição no ensino garante perenidade”. Embora a tradição tenha valor e seja um componente importante da identidade dessas instituições, não pode ser vista como garantia absoluta de sucesso a longo prazo. O reconhecimento dos desafios presentes é essencial para que as escolas católicas possam se adaptar e prosperar em um ambiente educacional em constante mudança. Avanços tecnológicos, mudanças nas demandas dos alunos e famílias, e evolução das metodologias de ensino são apenas alguns dos aspectos que as instituições precisam enfrentar.

Nesse contexto, é fundamental incentivar a inovação e a busca por novas estratégias educacionais. As escolas católicas devem estar abertas a experimentar novas abordagens pedagógicas e pastorais, incorporar tecnologias emergentes e explorar formas criativas de envolver os alunos no processo de aprendizagem. Isso inclui a implementação de programas extracurriculares relevantes, a adaptação dos currículos para atender às necessidades do século XXI e o investimento em formação profissional para os educadores.

É importante ressaltar que a busca por novas estratégias educacionais não significa abandonar completamente a tradição, mas, sim, adaptá-la às necessidades e realidades do mundo contemporâneo, ressignificando seu sentido: se, um dia, há praticamente um século, fomos capazes de reinventar a educação e oferecer um programa inovador à época, hoje somos capazes, também, de nos reinventar e nos manter fiéis aos nossos princípios. Deve-se lembrar que as escolas e universidades católicas são tradicionais na criatividade e na inovação.

Como oitavo e último desafio que desejamos refletir, é o de incorporar as escolas à vida da Igreja de forma dialógica e sinodal. A separação entre clero religioso e clero secular ou entre vida religiosa consagrada e pastoral orgânica paroquial não devem implicar um isolamento das escolas, mas a busca de diálogo. As escolas têm cada vez mais se movimentado no sentido de fortalecer os laços com a comunidade eclesial, buscando apoiar e fortalecer a pastoral paroquial, dialogar com o pároco, conhecer e aplicar o que lhe é próprio nos projetos diocesanos de pastoral. Isso pressupõe abertura e disponibilidade por parte das instituições. Igualmente, espera-se do episcopado, do clero e das lideranças leigas nas dioceses e nas paróquias o movimento de abertura ao diálogo, entendimento mútuo e superação de ruídos de comunicação.

Alimentar as esperanças

Na conclusão desta reflexão, é importante salientar as muitas esperanças que nutrem a educação católica dia após dia. Se, de um lado, temos grandes questões a serem enfrentadas, por outro, temos movimentos significativos empenhados em garantir longa vida às escolas e universidades mantidas pela Igreja. 

O surgimento de uma cultura de inovação, nas escolas católicas, é um sinal encorajador, que indica uma disposição crescente para explorar novas abordagens pedagógicas e pastorais. Além disso, o reconhecimento da importância da identidade católica, em um mundo em transformação, e a busca das famílias por instituições que promovam valores sólidos impulsionam a educação católica rumo a um futuro promissor.

O aprimoramento na gestão das instituições também oferece oportunidades significativas para fortalecer a eficiência e a sustentabilidade das escolas católicas, de forma a garantir que possam continuar a desempenhar o papel vital na formação integral dos estudantes.

Diante desses avanços e desafios, é essencial um chamado à ação e à colaboração de todos os envolvidos na comunidade educativa católica. Somente trabalhando juntos, compartilhando ideias e recursos, e comprometendo-se com a missão e os valores da educação católica, podemos enfrentar os desafios do presente e construir um futuro promissor para essas instituições, tão importantes para a sociedade brasileira e para a Igreja.

Que este momento de transição seja encarado como uma oportunidade para renovar e fortalecer a educação católica, com o propósito de garantir que continue a ser uma fonte de esperança e inspiração para as gerações futuras, com a insistência de quem tem fé.

Texto escrito em parceria com Fr. João Ferreira Junior, OFM Cap e publicado no livro “Como fermento na massa” (ANEC, 2024)

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